Opinião: Corrupção e incoerência

Zizo Mamede 

Algumas palavras não deveriam ter sido criadas. Em nenhum idioma. Coerência é uma delas. É uma palavra que carrega armadilhas. E quem não se viu um dia numa atitude de incoerência que atire a primeira pedra. No mundo da política o que mais tem é gente incoerente. (Não se quer aqui carregar as tintas em juízos de valor, exercício tão fora de moda depois das quedas de tantos “muros”)

A incoerência da Oposição

O PSDB, DEM e PPS não só não têm discurso político-programático para enfrentar o bloco liderado pelo governo petista, como a preço de hoje parece não ter saídas para os embates eleitorais. Se por um lado trabalha pelo insucesso do Governo Dilma, teme a possibilidade de em 2014 se ver diante da maior liderança política do Brasil, Lula da Silva. Se não quer enfrentar Lula nas urnas, avalia que isso não acontecerá se Dilma fizer um governo suficientemente bom para avalizar a candidatura à reeleição.

Com o apoio dos antigos aliados da mídia a oposição busca desconstruir Lula tentando afastá-lo de Dilma. Primeiro fazendo paralelos entre duas personalidades de carismas diferentes, o que não surtiu nenhum efeito, a não ser revelar como de si mesmo a oposição não tem algo de importante a dizer. Agora a oposição aciona o discurso extremo do combate à corrupção, uma herança, segundo a oposição, criada por Lula após séculos de história de fundação do Estado brasileiro. Dilma deve portanto ser a protagonista dessa desconstrução de Lula. Pode? Logo a oposição da “pasta cor de rosa”, da compra dos votos para a PEC da reeleição e de tantas outras diabruras?

A incoerência no PT

É com surpresa que se ouve em algumas conversas entre petistas que a presidenta Dilma não pode esticar a corda do combate a corrupção porque isso é jogo da oposição e da mídia conservadora para desconstruir Lula e paralisar o Governo, pondo em risco à governabilidade. Claro que é isso mesmo o que a oposição quer e não se pode pedir para a oposição não fazer oposição.

Mas o PT, que enfrenta uma campanha sistemática de estigmatização por conta do escândalo do “caixa dois/mensalão” corre o risco de ser visto como o partido que não quer um aprofundamento do combate à corrupção nos país. Logo o PT que durante décadas levantou a bandeira da ética na política, agora pode deixar essa bandeira nas mãos da oposição.

Ainda bem que a presidenta Dilma tem a medida correta da sua missão: “a faxina do Governo é contra a miséria no Brasil e o combate à corrupção são ossos do ofício”. Bom para o Brasil. Bom para o Governo. Bom para o partido da presidenta do Brasil.

Medo de que afinal?

A corrupção do verbete

Atualmente, paira na consciência média da população que corrupção é prática de governos, servidores públicos e empresários que buscam se beneficiar com os subornos e a depravação com o dinheiro público. Os neoliberais - onde andam os neoliberais? – inclusive confinaram a palavra nas masmorras do Estado, geneticamente contaminado com esse vírus maldito e que para ser extirpado dessa praga tinha que ser privatizado.

A opinião comum é que corrupção é algo peculiar ao Estado. Nesse diapasão escamoteia-se que a corrupção é sempre para favorecer os interesses privados, seja de governantes, parlamentares, servidores públicos, empresários. Essa compreensão comum parece ser uma herança cultural do que estabelece a legislação do Brasil. Corrupção na vida privada não é corrupção, é fraude.

Os números da corrupção no Brasil

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) realizou em 2008 um estudo que revela os prejuízos econômicos que a corrupção causa no Brasil. Os dados coletados indicam que a corrupção custa anualmente ao país algo entre 1,38% (um vírgula trinta e oito por cento) e 2,3% (dois vírgula três por cento) do Produto Interno Bruto (PIB). Em valores de 2010, isso equivale a cifras que variam entre 50,7 bilhões e 84,5 bilhões de reais. Essa corrosão do dinheiro público em favor dos interesses privados representa um imenso prejuízo para a nação.

Só para efeitos de comparação, isto corresponde a até 13% (treze por cento) de tudo o que o Governo Federal pagou com juros, amortizações e refinanciamento da dívida pública em 2010, cujo montante foi de 635 bilhões de reais ou 17,27% do PIB brasileiro.

Invertendo os termos da equação: Essa corrosão das riquezas do Brasil para pagar juros da dívida é 7,5 vezes maior do que o país perde com a corrupção. Corrosão e corrupção são palavras sonoramente muito parecidas. Mas essa corrosão do orçamento da União para pagar despesas da dívida pública é legal. Portanto, não é corrupção.

Corrupção nas explicações

É corrente uma explicação do pecado original da corrupção no Brasil: Trata-se de uma herança genética do tipo de português que aportou aqui no longínquo século XVI para colonizar as terras de Pindorama. Gente vadia. Criminosos que tiveram a pena de morte comutada pelo degredo nos trópicos.

Nada mais falso do que esse argumento.

A Austrália, colonizada pela Inglaterra, era uma prisão para onde eram desterritorializados os criminosos britânicos. Hoje é um dos países com menos corrupção no planeta.

A corrupção é cultural. Não é obra de Deus nem da natureza. Ela está no meio de nós e se o mau exemplo vem dos andares superiores da sociedade, são os pequenos gestos nos andares de baixo que lhes dá as colunas de sustentação.


Por Zizo Mamede
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