Escola municipal em João Pessoa tem índice zero de evasão



À primeira vista, a escola municipal Doutor José Novaes em nada difere de uma escola pública. Instalações acanhadas, com apenas um laboratório de informática e, na área de lazer, tudo o que coube foi a quadra, onde os 337 alunos passam o recreio e têm aulas de dança, teatro ou música. Na biblioteca, em que há 3.000 volumes, também funciona o consultório de psicologia. Mas o colégio, a 16 quilômetros do Centro de João Pessoa, faz diferença: tem índice zero de evasão (no horário diurno); ano passado, o percentual de estudantes reprovados não passou de 2%; e quase não há defasagem idade-série. Este ano, 98% dos alunos foram alfabetizados entre 6 e 7 anos.

A escola atende crianças do 1º ao 5º ano, e as matrículas eram feitas por ordem de chegada. Para evitar filas e brigas, a direção resolveu aceitar inscrições ao longo do ano, admitindo as crianças por ordem de chegada. A maioria dos estudantes é muito pobre, convive com desagregação familiar, violência, alcoolismo, tráfico de drogas e prostituição. Mesmo assim, as paredes são impecavelmente limpas e há carteiras com mais de uma década de uso com aparência de novas.

O colégio foi a primeira unidade do município a contar com computadores (16), e tanto a sala de informática quanto a biblioteca foram construídas com a ajuda de empresas privadas e mão de obra voluntária dos pais dos estudantes da comunidade, que a diretora, Nivonete Rodrigues de Melo, conhece como a palma da mão. Escolhida em eleição direta por várias vezes, ela, há 35 anos na escola, tem o mapa do bairro e a história de vida dos seus moradores na cabeça. Conhece até os alunos que são mais carentes e pede à merendeira para reforçar suas refeições. Em alguns casos, arranja até cestas básicas para pais desempregados ou em situação financeira difícil.

— Já vi muita situação complicada aqui no bairro. Até menino amarrado a uma mesa pelo pescoço já presenciei. O pai alegou que era muito levado, mas pedi a ele que não fizesse mais aquilo e trouxe o garoto para a escola. O garoto tornou-se um bom aluno, é um grande cidadão e seus filhos hoje estudam aqui. Temos professores que foram nossos alunos e recebemos 15 garotos que eram de rua mesmo e que hoje prosseguem nos estudos em outros estabelecimentos — orgulha-se a diretora.

Ela passa todo o dia na escola, vivencia os problemas do bairro e participa pessoalmente do processo de recuperação de alunos em dificuldade. É numa mesinha no meio do corredor, vizinho à quadra, que reúne os alunos para assistir aqueles em descompasso com a aprendizagem. Este ano, por exemplo, na 1ª série, só duas crianças estão à distância das demais. Paciente, Nivonete reúne de três a quatro meninos e meninas por vez e vai, ela mesma, ministrando as aulas de reforço.

Caso perceba alguma necessidade, encaminha para a psicóloga Jeane de Fátima, que, por sua vez, envia a criança para uma unidade de atendimento especial na Universidade Federal da Paraíba, com a qual a escola mantém convênio. Atualmente, há dez em atendimento, recorrendo a serviços como fonoaudiologia, psicopedagogia e neurocomportamento. O cuidado individual, o esmero no ensino e o alto índice de aproveitamento dos estudantes terminaram por levar o Ministério da Educação a atribuir nota 6 à escola no Ideb.
— Temos aqui também uma ótima equipe de 15 professores, todos com muito compromisso e dedicação. Eles monitoram com cuidado a frequência dos alunos e, na terceira falta, a mãe é acionada — afirma Fernando Guimarães de Menezes, vice-diretor, e há 22 trabalhando na escola.

Embora só cinco dos 15 docentes sejam efetivos, não há improvisações: todos atuam na área de formação, o que evita, por exemplo, que um professor formado em línguas seja obrigado a dar aulas de matemática. Todos têm formação em pedagogia, sendo que 98% possuem curso superior, e 50%, especialização na área de educação. Ao longo de uma década, o índice de rotatividade dos professores não chegou a 2%, o que demonstra alto índice de satisfação com o trabalho.

Um clima que se reflete no ex-aluno Gilberto Nunes, de 12 anos, atualmente cursando a 6ª série em outro colégio público, o Otávio Novaes. Ele teve problemas familiares, viveu na rua e recebeu o carinho da equipe que terminou mudando o rumo de sua vida. Na semana passada, ele estava na escola fotografando ex-colegas e ex-professores.
— Aqui aprendi a parar de bagunçar na sala de aula, tomei gosto pelo estudo, aprendi a ser um cidadão e quase tudo que sei, pois me sentia muito bem. A escola é minha grande família — disse.

Além dos 15 professores, a José Novaes tem um supervisor escolar, uma psicóloga, um diretor, dois adjuntos e dois monitores de informática. Os pais participam ativamente das decisões da escola — com presença em 80% das reuniões —, e os alunos, além da grade curricular, contam com atividades como xadrez, dança, teatro e projetos de leitura (escrevem livros e cordéis).

O Globo Online
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